domingo, 10 de janeiro de 2010

Pensar... Decidir... Sentir











Pensar incomoda como andar à chuva. E eu penso. Penso que pensar não incomoda: cansa. O que incomoda é o hipotético Valor da verdade, ou dúvida ou incerteza ou ilusão que sempre acompanha o pensamento. É essa ideia outra que se levanta mais além...- esse não sei quê que nem sequer é ideia, pensamento: e que é talvez um grito que se dá de fora para dentro, ou um real que nasce fora, mas sabe que dentro é que é o seu lugar. Não!, não!, não é cansaço: é incómodo. E não pensar é andar incomodado... - é vender a alma por nada e vender a alma por tudo, e comprar um mundo cheio de vazio. Eis as formas elas-mesmas, bombardeando em ritmo de acelerado coração os impulsos da vida. E é tão pesado o ar, ou a inteligência imediata que alimenta os entes vivos... - e sempre a mesma tortilha de respostas feitas para se comerem cruas!, ou sempre a vergonha de se ficar para trás a escutar a melodia do silêncio.


Queria ser um ditador de sensações: e queria lembrar-me sempre, ah se a gente pudesse lembrar isso sempre!, que entre a razão e o mundo existe um momento... - mas tudo se esquece tão cedo!... Um sorriso ao sol, ao menos! - ou um silêncio alegre que vem de fora para dentro. Por um momento ao menos! - por um instante ter grande saúde de não perceber coisa nenhuma, ou qualquer coisa assim, mas que não se perceba: como gostar do Outono, talvez. O outono! - agrada-me tanto o outono real das coisas. Agrada-me tanto o teatro das atracões: os odores, os sons, as cores, e as vaidades! E a parcela exacta que tudo acompanha. Ah o outono real!, o real das coisas!


Sim, sim! sem mais... ir para a vida como quem vai para o baile de máscaras e se enganou na fantasia! - uma fantasia que é por dentro e não por fora: porque por fora, o mais certo é que quase tudo seja fantasia: como um império mundial das coisas que se podiam dizer... talvez. Sim, enganar-me na fantasia e ser rei, hoje!, das minhas sensações... - e sem batuta, ou razão talvez!, ser ainda o maestro capaz de saber o que fazer com elas. E sentir: sim!, sentir!, sentir mesmo!, ao menos hoje... - sem ter que ter nas mãos do peito a régua e o esquadro do pensamento. Quer dizer agir como se houvesse bastante razão em não se ter razão nenhuma!


Estendo-me feliz sobre coisa alguma! - e suspenso, o espaço vindouro, vai caindo a meus pés. e a memória exacta do que foi esvanecendo-se aos poucos. É o rio da perda! - e, ao fim ao cabo, ninguém sabe bem o que perdeu. Quem fostes?, o que sonhastes?, fizeste?, sentiste?. sim, tu!, o que sentiste tu?, o que é que te assustou ou te deu esperanças? - é a ilusão que nos alimenta. É o real que alimenta a ilusão... - e o real é só ilusão que nos alimenta e nos constrói. O real? - um corpo doce servido com água, talvez. ou a primeira fatia de um bolo que apetece, porque ainda não estar enfastiado de bolo. ou um nada, com sabor de ilusão. Ah o real! - talvez um mau vinho que se bebe numa má noite, só porque tem que se beber qualquer coisa em noites assim. O que mas me agrada no real, mais até que a sua realidade, ou realeza talvez!, é essa medida exacta de ilusão que o acompanha, que nos alimenta. É essa estonteação suprema e vã, é passear pela vida de mãos dadas com Caeiro e Álvaro de Campos.


Texto: Álvaro de Campos

Fotografia: Janaína Teles (Monsteiro dos Jeronimos - Lisboa-Portugal, 2009)

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