domingo, 24 de janeiro de 2010

Título... "Stop, conta a tua história!"

Contextualização...

Partindo do foco entre identidade e memória, a proposta de intervenção que descreverei mais a frente, procura evidenciar a relação indissociável entre os espaços e os sujeitos. Os elementos móveis de uma cidade, especialmente as pessoas e as actividades são tão importantes como as suas partes físicas e imóveis, sem descurar a abordagem sensitiva onde cheiros, sons, imagens, ritmos povoam o imaginário constante dos lugares.

No sentido de conhecer a forma como as pessoas que transitam o Centro Comercial STOP se apropriam do espaço, na configuração dos limites, percursos diários, pontos marcantes, centralidades, lugares de referência, pretende-se utilizar a produção de imagem como instrumento de análise e produção de um discurso identitário do lugar. Através deste discurso podem-se descortinar estruturas simbólicas que identificam o STOP enquanto lugar de interacções, memórias e vivências quotidianas.

Ao contrariar a identidade do lugar na sua qualidade de ligação emocional, de experiências e história, o não-lugar, de Marc Augé (1994), resulta dos excessos da sobremodernidade e representa os espaços públicos de rápida circulação, transitórios e desprovidos de identidade.

Desta forma, irá o STOP ao encontro da ideia de um não-lugar, enquanto ausência de referenciais afectivos, espaciais e temporais na narrativa pessoal e colectiva, ou em contrapartida irá de encontro a esta ideia apresentando quadros sistémicos das relações sociais que decorrem numa comunidade?

Actualmente há certa hibridação que caracteriza estes espaços suburbanos que protagonizam, simultaneamente, sentimentos de pertença locais e referências urbanas emergentes. O conceito de local globalizado de Michel Agier explica-nos que o processo de criação cultural, na fabricação de um imaginário urbano, encontra-se disseminado, sob efeito das dinâmicas da globalização, ultrapassando os limites da cidade, numa espécie de “dissociação entre os lugares, as identidades e as culturas” (SILVA apud AGIER, 2001: 21).

Marc Augé fala também de lugares antropológicos (1994) para retratar este espaço identitário, histórico, de encontro e referência afectiva, revestido de sentido, em oposição à ideia do não-lugar. Para o autor, dotar o lugar de identidade passa por revolver o seu passado enquanto lugar da memória.

Assim o STOP pode vir a ser um espaço de encontro coletivo, um lugar antropológico, inserido num contexto urbano, que na maioria de seus espaços impulsionma uma possível diluição de memórias colectivas e uma crescente individualização.

Desta maneira podemos perceber o STOP como um lugar de memória, permanentemente preservado e revitalizado por uma particular dinâmica de grupos vivos, permitindo, desta forma, a identidade e a diferenciação dele próprio.


Enquadramento...

Assim como um espaço alternativo e não institucional, que desenvolveu-se a partir de experiências espontâneas de vários grupos de músicas da cidade do Porto, a presente proposta de intervenção pretende produzir um livro memorial do lugar (formato digital). Este livro teria como matéria prima o registro fotográfico dos pormenores das salas de ensaios, como: imagens fotográficas, recortes de revistas, objetos etc, os quais carregam vestígios memoriais das pessoas que convivem naqueles espaços. Como uma "espiada pela fechadura" as portas dos estúdios, o livro compilaria conteúdos curiosos acerca das bandas, os quais poderiam localizar o Centro Comerial STOP como espaço importante na história da música da cidade do Porto. Juntamente com as imagens pretende-se utilizar também áudio de testemunhos das pessoas, fazendo com que as imagens falem mais do que por elas mesmas. Assim, fugindo de uma historicização institucional e tradicional, pretende-se ouvir a história daquele lugar pelas falas das próprias pessoas que se relacionam de alguma forma com aquele espaço, sendo músicos ou não. As informações obtidas podem compor um mosaico em que se fundem no presente vivido, um passado e um futuro, tanto do STOP, como da própria relação deste com a cidade.

A forma digital vem como uma maneira mais apropriada nos dias de hoje, em que verificamos a facilidade de acesso e distribuição de informação via internet, como também o aspecto de transitoriedade é verificado neste meio. Criticam-se muito os aspectos fugazes e efémeros do meio digital na actualidade, porém podemos utiliza-los ao nosso favor quando percebemos que já não há lugar para certezas históricas. Sabemos que uma das posturas mais fortes na ideologia dominante contemporânea é, exatamente, a ênfase na sobreposição de fronteiras e a ênfase na impossibilidade de estabelecer-se campos, conceitos e categorias definidas. Então para este projecto o formato digital seria então possível de ser manipulado e alterado, seguindo a dinâmica do próprio lugar.

A recolha documental seria realizada em plena interacção com os sujeitos, os quais dão significados ao lugar. Assim na imagem documental é ético mostrar o processo de representação, não é ético construir a representação para sustentar a opinião correcta. O trabalho pretende ter este importante cuidado na recolha do material iconográfico.

Apesar do principal objectivo do projecto ser a busca de falas multifacetas, todas as falas tem o espaço STOP como referência, sendo este o local comum destas falas, onde se convergirão. Além disso outro ponto importante a se colocar é o processo de recolha. Neste é impossível apresentar-se como um trabalho neutro por parte de quem fará a recolha, havendo sempre um factor subjectivo deste que vai se evidenciar na selecção, no layout, selecção de audio etc. O processo pode ser semelhante ao filme documentário, onde verificamos que parte-se necessariamente de uma busca àquilo que é externo ao cineasta. Essa busca envolve, necessariamente, uma negociação prévia, para a viabilização do registro, que marca o início de um processo de troca entre um “eu” e um “outro”. O registro dessa troca obedecerá sempre o comando do diretor do filme responsável pela maioria das decisões de filmagem. De posse de todo o material captado, será apenas na sala de montagem que o diretor, assessorado por seu montador, terá total controle do universo de representação do filme. O percurso é marcado pela perspectiva daquilo que está por vir, a captura de um real que gradualmente vai sendo moldado até se transformar em filme. Estamos falando da construção de um discurso sedimentado em ocorrências do real. Se existe um discurso, o filme, quer seja ele narrativo ou não, existirá sempre alguém que o profere, um sujeito da enunciação.


Objetivos... 1. Contribuir para iniciar um movimento de composição da história viva do local através do registro fotográfico dos pormenores das salas do STOP; 2. Contribuir para uma pretensa interação entre os diferentes grupos que frequentam o STOP, como também entre este e outros espaços da cidade (externo); 3. Contribuir para legitimar o STOP como espaço de fomentação de movimentos da cultura musical da cidade do Porto.

Conteúdos... Por meio de um processo de metalinguagem fotográfica (foto da foto) pretende-se recolher os registos e imagens que são espólio dos habitantes do Stop. Acompanhado destes registros pretende-se recolher áudios com testemunhos acerca das imagens.

Concretização... Na primeira fase o projeto pretende fazer uma recolha através do registro fotográfico. Paralelamente também se recolheria depoimentos sobre cada ma disponibilizado terial(imagem). Materiais estes que serão, num segundo momento, comportados em um livro digital que seria no site do STOP. Materiais recolhidos: Fotografias de imagens fotográficas, recortes de revistas, objetos etc, ou seja, material esquecido ou que compõem os layouts improvisados\espontâneos das salas; Áudio (pequenos relatos dos habitantes sobre as imagens).



Referências...


AUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas-SP: Papirus, 1994.

SILVA, Maia Sofia. Que Identidades em canelas? Percepções Sensíveis do Espaço Social numa freguesia de Vila Nova de Gaia. Comunicação apresentada no Congresso Turismo Cultural, Territórios e Identidades | Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Leiria. 2006


SOARES, Sérgio J. Puccini. Documentário e Roteiro de Cinema: da pré-produção à pós-produção. Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Multimeios do Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, para obtenção do título de doutor em Multimeios. 2007.



*Projeto STOP, desenvolvido no Mestrado de Design da Imagem da Universidade do Porto-Portugal, na Disciplina de Dispositivos Visuais. Prof. Anselmo Canha.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Tipografia






*Projeto tipográfico a partir de filmes

Logomarcas





*Projeto Contextualização e Descontextualização de Logomarcas. Técnica manual

Vinil


*Projeto Som Imagem | vinil e cartaz

Colagens

Arte Nova

Homofobia
Arte concreta
Masculino
Manual
Bem
Homofobia
Digital

Racional

*Trabalhos da Disciplina de Int. ao Design, Universidade do Porto
Proposta: Produzir imagens através de recorte e colagem de um exemplar do Jornal Público.PT

domingo, 10 de janeiro de 2010

Pensar... Decidir... Sentir











Pensar incomoda como andar à chuva. E eu penso. Penso que pensar não incomoda: cansa. O que incomoda é o hipotético Valor da verdade, ou dúvida ou incerteza ou ilusão que sempre acompanha o pensamento. É essa ideia outra que se levanta mais além...- esse não sei quê que nem sequer é ideia, pensamento: e que é talvez um grito que se dá de fora para dentro, ou um real que nasce fora, mas sabe que dentro é que é o seu lugar. Não!, não!, não é cansaço: é incómodo. E não pensar é andar incomodado... - é vender a alma por nada e vender a alma por tudo, e comprar um mundo cheio de vazio. Eis as formas elas-mesmas, bombardeando em ritmo de acelerado coração os impulsos da vida. E é tão pesado o ar, ou a inteligência imediata que alimenta os entes vivos... - e sempre a mesma tortilha de respostas feitas para se comerem cruas!, ou sempre a vergonha de se ficar para trás a escutar a melodia do silêncio.


Queria ser um ditador de sensações: e queria lembrar-me sempre, ah se a gente pudesse lembrar isso sempre!, que entre a razão e o mundo existe um momento... - mas tudo se esquece tão cedo!... Um sorriso ao sol, ao menos! - ou um silêncio alegre que vem de fora para dentro. Por um momento ao menos! - por um instante ter grande saúde de não perceber coisa nenhuma, ou qualquer coisa assim, mas que não se perceba: como gostar do Outono, talvez. O outono! - agrada-me tanto o outono real das coisas. Agrada-me tanto o teatro das atracões: os odores, os sons, as cores, e as vaidades! E a parcela exacta que tudo acompanha. Ah o outono real!, o real das coisas!


Sim, sim! sem mais... ir para a vida como quem vai para o baile de máscaras e se enganou na fantasia! - uma fantasia que é por dentro e não por fora: porque por fora, o mais certo é que quase tudo seja fantasia: como um império mundial das coisas que se podiam dizer... talvez. Sim, enganar-me na fantasia e ser rei, hoje!, das minhas sensações... - e sem batuta, ou razão talvez!, ser ainda o maestro capaz de saber o que fazer com elas. E sentir: sim!, sentir!, sentir mesmo!, ao menos hoje... - sem ter que ter nas mãos do peito a régua e o esquadro do pensamento. Quer dizer agir como se houvesse bastante razão em não se ter razão nenhuma!


Estendo-me feliz sobre coisa alguma! - e suspenso, o espaço vindouro, vai caindo a meus pés. e a memória exacta do que foi esvanecendo-se aos poucos. É o rio da perda! - e, ao fim ao cabo, ninguém sabe bem o que perdeu. Quem fostes?, o que sonhastes?, fizeste?, sentiste?. sim, tu!, o que sentiste tu?, o que é que te assustou ou te deu esperanças? - é a ilusão que nos alimenta. É o real que alimenta a ilusão... - e o real é só ilusão que nos alimenta e nos constrói. O real? - um corpo doce servido com água, talvez. ou a primeira fatia de um bolo que apetece, porque ainda não estar enfastiado de bolo. ou um nada, com sabor de ilusão. Ah o real! - talvez um mau vinho que se bebe numa má noite, só porque tem que se beber qualquer coisa em noites assim. O que mas me agrada no real, mais até que a sua realidade, ou realeza talvez!, é essa medida exacta de ilusão que o acompanha, que nos alimenta. É essa estonteação suprema e vã, é passear pela vida de mãos dadas com Caeiro e Álvaro de Campos.


Texto: Álvaro de Campos

Fotografia: Janaína Teles (Monsteiro dos Jeronimos - Lisboa-Portugal, 2009)