Ali perto do mar, o menino Totó já crescido, cansado de esperar pela sua amada, conversa com seu velho amigo cego. Tem momentos na vida que precisamos sair do nosso ninho, ir para longe dele, quebrar elos, laços, para costurá-los novamente mais adiante, com as nossas próprias mãos. Deixar para trás memórias e seguir em busca de novas histórias, novas memórias. Foi mais ou menos assim que aconteceu na cena de um filme que assisti esta semana, “Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore, 1988), o qual eu recomendo para todos. Ou foi pelo menos assim que interpretei, pois não lembro exactamente como foi o diálogo dos personagens. Afinal tudo que vemos é filtrado por nosso arsenal de “quinquilharias” que se acumulam nas nossas memórias, e se expressam no nosso corpo, na nossa maneira de ser. Lembrei-me quando meu pai aconselhou-me um dia a voar, levantar as minhas asas e voar, levantar vôo, bem alto, sem medo pois era preciso. Se porventura, algo acontecesse, ele estaria sempre lá. Que bom! Todos temos asas, umas pequenas, outras grandes, outras machucadas, com cicatrizes, ou saradas, outras calejadas, outras atrofiadas, outras desengonçadas, acanhadas, quietinhas, outras que não se cansam e enfeitiçam a todos com a beleza de seu voo, outras são muito belas mas não conseguem voar. Todas estão a espera de alçar voo. Cada qual da sua forma, do seu jeito. Quanto mais alto temos coragem de voar, mais ficamos perto de nós mesmos. Siddharta Gautama (Hermann Hesse) viajou por vários lugares, voou bem alto e bem longe, cruzando com várias histórias, várias pessoas, para chegar mais perto dele mesmo. Ele procurava algo importante que achou no simples ofício de levar as pessoas de uma margem a outra do rio. Achou grandeza na simplicidade deste ofício. Ele voou bem alto. Ele viu lá de cima como era pequenino diante daquela imensidão. Como somos pequenos e nos esquecemos disso a todo instante. Nossa busca pelo crescimento normalmente fica presa em redomas, limitada a padrões e no final podemos até conseguir criar reinos, mas que são belas arquitecturas por fora e ocas por dentro.
sábado, 19 de dezembro de 2009
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